O cofundador e presidente executivo (CEO) da Anthropic, Dario Amodei, afirmou que a indústria de inteligência artificial (IA) não foi totalmente transparente com o público sobre os riscos associados à tecnologia, defendendo que governos e cidadãos devem participar na resposta aos perigos que podem surgir.
As declarações foram feitas numa entrevista ao programa Sunday Morning, da cadeia de televisão norte-americana CBS, divulgada este domingo.
“Não vos vou mentir. Existem perigos reais. E acho que durante muito tempo a indústria mentiu às pessoas sobre o facto de esta tecnologia ser arriscada. Nunca o fizemos (na Anthropic), mas grande parte da indústria sim”, afirmou Dario Amodei.
O responsável máximo da Anthropic falou sobre o assunto depois de, no sábado, ter defendido um abrandamento no desenvolvimento de novos modelos de inteligência artificial, de modo a permitir uma compreensão mais aprofundada dos riscos associados ao aumento das capacidades destes sistemas.
A posição recebeu apoio público do presidente executivo da OpenAI, Sam Altman, e de Elon Musk, fundador da xAI.
Riscos de ciberataques, bioterrorismo e perda de controlo
Amodei alertou para vários perigos relacionados com a utilização indevida da inteligência artificial, incluindo a possibilidade de a tecnologia ser utilizada para ciberataques e bioterrorismo.
O CEO da Anthropic também apontou para os riscos relacionados com uma eventual perda de controlo dos sistemas de IA, além dos efeitos que a tecnologia poderá provocar na economia e no mercado de trabalho através da disrupção económica.
Apesar dos alertas, Amodei rejeitou a ideia de uma proibição total da inteligência artificial.
“Não acho que proibi-la completamente seja a abordagem correta.”
Na entrevista à CBS, explicou que existem pelo menos duas razões para não considerar uma proibição completa da tecnologia.
Segundo o responsável, uma proibição significaria abdicar de potenciais benefícios considerados extraordinários, incluindo possíveis curas médicas.
“Primeiro, a ideia de que nunca obteremos os benefícios incríveis, de que nunca obteremos as curas médicas, é algo que não me agrada.”
Amodei acrescentou que, mesmo que os Estados Unidos decidissem proibir ou travar completamente o desenvolvimento da IA, outros países continuariam a desenvolver a tecnologia.
“Segundo, esta tecnologia será desenvolvida noutros países, incluindo em países autoritários.”
EUA e China no centro do debate
O responsável da Anthropic considerou particularmente difícil o cenário em que os Estados Unidos abrandassem o desenvolvimento da inteligência artificial enquanto a China continuasse a avançar nesta área.
Nesse contexto, apontou para aquilo que classificou como “o dilema mais difícil” do debate em torno do desenvolvimento da tecnologia.
Ainda assim, Amodei reconheceu sentir-se desconfortável com a possibilidade de uma empresa privada, e não um governo democraticamente eleito, assumir o controlo de uma ferramenta com tamanho poder.
Por essa razão, defendeu a criação de uma estrutura baseada numa “combinação de governos democráticos”, que possam exercer uma espécie de “governação conjunta” e acompanhar de perto as empresas responsáveis pelo desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial.
“Se a construirmos da forma errada”
O CEO da Anthropic também destacou que a forma como a inteligência artificial for desenvolvida poderá determinar o nível de risco associado à tecnologia.
“Se construirmos a IA da forma correta, penso que a probabilidade de algo mau acontecer é muito baixa. Se a construirmos da forma errada, a probabilidade de algo mau acontecer é muito elevada.”
Apesar dos alertas apresentados por Amodei, a posição de outros responsáveis políticos norte-americanos continua a apontar para a necessidade de manter o desenvolvimento da inteligência artificial.
Este domingo, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, defenderam que o desenvolvimento da IA deve prosseguir, com o argumento de que é necessário impedir que a China conquiste a liderança tecnológica nesta área.