Venâncio Mondlane anuncia documentação de alegados crimes contra membros da ANAMOLA e prepara “Julgamento do Século”
Bangkok, Tailândia, 30 de Outubro de 2026 — O Presidente da ANAMOLA, Venâncio Mondlane, dirigiu-se aos moçambicanos e à comunidade internacional através de uma transmissão em directo a partir de Bangkok, na Tailândia. Durante a intervenção, abordou a sua participação em organizações políticas internacionais, a documentação de alegadas violações dos direitos humanos, a situação política e económica de Moçambique, a reestruturação interna da ANAMOLA e o julgamento que se aproxima.
O discurso esteve organizado em torno de três grandes temas: a representação internacional de Moçambique em fóruns ligados à democracia liberal, a recolha e sistematização de informações sobre alegados crimes contra membros e apoiantes da ANAMOLA e a crise nacional, acompanhada de um apelo à mobilização espiritual dos moçambicanos.
Participação em organizações internacionais de orientação liberal
Venâncio Mondlane confirmou que se encontra em Bangkok para participar, durante três dias, em actividades de organizações políticas internacionais.
A primeira é a Assembleia Geral do Conselho dos Liberais e Democratas Asiáticos (CALD), órgão máximo daquela organização, na qual participa como convidado de honra e orador principal.
A partir de 1 de Novembro, o dirigente anunciou igualmente a sua participação no Congresso Mundial da Internacional Liberal, na qualidade de observador e orador. Descreveu esta organização como uma das maiores estruturas internacionais que reúne partidos políticos, parlamentares e jornalistas liberais e democráticos, tendo como objectivo a defesa da democracia e do Estado de direito democrático.
Durante a intervenção, esclareceu também o posicionamento ideológico da ANAMOLA, que definiu como Liberalismo Social-Democrata.
Segundo Mondlane, o conceito de liberalismo defendido pelo partido não deve ser confundido com uma visão negativa associada ao extractivismo. Na sua explicação, a orientação ideológica da ANAMOLA assenta nos seguintes princípios:
- Defesa do Estado de direito democrático;
- Protecção da iniciativa privada e dos cidadãos que criam postos de trabalho;
- Redução da carga fiscal;
- Intervenção estratégica do Estado para dinamizar a economia;
- Valorização dos cidadãos e das empresas que contribuem para o funcionamento do Estado através do pagamento de impostos.
O dirigente afirmou que estes princípios constituem a base ideológica da formação política que lidera.
ANAMOLA apresenta documentação sobre alegadas violações dos direitos humanos
Um dos pontos centrais do discurso foi a apresentação do trabalho de documentação de alegados crimes contra membros e apoiantes da ANAMOLA.
Mondlane afirmou que o partido conseguiu desenvolver um processo sistemático de recolha de informações sobre assassinatos e outras violações dos direitos humanos, algo que, segundo ele, nenhuma outra formação política moçambicana teria conseguido realizar nas últimas décadas de perseguição política.
Para explicar a importância desse trabalho, recorreu ao exemplo do livro brasileiro Brasil: Nunca Mais, uma iniciativa da Igreja Católica que reuniu documentação sobre crimes cometidos durante a ditadura militar naquele país.
Na sua interpretação, a principal lição dessa experiência é que os acontecimentos devem ser registados e documentados, mesmo quando não existem condições políticas para que a justiça seja feita imediatamente. Segundo explicou, a documentação pode permitir que os responsáveis sejam responsabilizados quando o contexto político se tornar favorável.
A inspiração no caso Marielle Franco
Mondlane revelou ainda que a campanha da ANAMOLA intitulada “Quem Mandou Matar Anselmo?” foi directamente inspirada no movimento brasileiro “Quem Mandou Matar Marielle?”, criado na sequência do assassinato da activista e política Marielle Franco.
Durante o discurso, recordou que o caso de Marielle foi acompanhado durante cinco anos por cidadãos brasileiros, que levaram cartazes e mensagens de exigência de justiça a estádios de futebol, concertos e universidades.
Segundo Mondlane, os responsáveis pelo assassinato acabaram por ser condenados, este ano, a penas superiores a 25 anos de prisão. Para o dirigente, o desfecho demonstra que a persistência na exigência de justiça pode produzir resultados, mesmo depois de vários anos.
Aplicando essa experiência ao contexto moçambicano, afirmou que, apesar de considerar que a FRELIMO controla instituições como a polícia, o exército, os esquadrões da morte e a Procuradoria-Geral da República, continua a valer a pena apresentar denúncias formais.
Mondlane questionou se, perante aquilo que descreveu como um sistema de poder concentrado nas mãos do partido governante, ainda faria sentido apresentar queixas às instituições. A sua resposta foi afirmativa.
O dirigente informou que a ANAMOLA está a encaminhar participações à Procuradoria-Geral da República, ao Provedor de Justiça, ao Ministério do Interior, ao Ministério da Justiça e ao actual Presidente da República, a quem classificou como ilegítimo e cuja chegada ao poder atribuiu ao uso de armas, gás lacrimogéneo e a decisões do Conselho Constitucional.
Na sua perspectiva, os comprovativos de recepção dessas queixas constituem registos legais que poderão servir de base a futuros processos judiciais em Moçambique, em tribunais africanos e no Tribunal Penal Internacional.
Denúncias sobre assassinatos políticos e alegada expansão do crime organizado
Ao abordar a situação nacional, Mondlane declarou que a violência contra membros da ANAMOLA não deve ser encarada apenas como um problema interno do partido, mas como um ataque ao próprio processo democrático.
O dirigente alertou para aquilo que descreveu como um padrão de repressão gradual, no qual diferentes sectores da sociedade são atingidos à medida que manifestam posições críticas em relação ao poder político.
Como exemplos, mencionou o assassinato do jornalista Carlos Cardoso, o caso do activista Anastácio e o ataque incendiário ao jornal Canal de Moçambique. Na sua leitura, a repressão teria avançado para a ANAMOLA e poderá atingir, futuramente, jornalistas, activistas, juízes, procuradores, professores e cidadãos comuns que não estejam alinhados com o que classificou como corrupção e ditadura.
Acusações sobre a presença de redes internacionais de tráfico de droga
O presidente da ANAMOLA fez também graves denúncias sobre a alegada presença de organizações criminosas internacionais em Moçambique, chegando a caracterizar o país como um possível narco-Estado.
Entre as organizações e redes mencionadas, destacou:
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Primeiro Comando da Capital (PCC): afirmou que a organização criminosa brasileira estaria instalada em Moçambique.
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Fuminho: referiu-se ao traficante brasileiro conhecido por esse nome, alegando que foi capturado em Moçambique e que vivia com ligações à família presidencial, dentro da própria Presidência da República.
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Redes internacionais de tráfico: mencionou alegadas ligações de máfias mexicanas, paquistanesas envolvidas no tráfico de heroína e outras organizações asiáticas que, segundo afirmou, utilizariam a costa moçambicana como corredor para actividades criminosas.
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Tráfico de heroína na África do Sul: citou declarações atribuídas a Moeletsi Mbeki, irmão do antigo Presidente sul-africano Thabo Mbeki, segundo as quais a FRELIMO teria sido identificada como a principal promotora da introdução de heroína na África do Sul, contribuindo para a destruição da juventude daquele país.
As afirmações foram apresentadas por Mondlane durante o discurso e constituem denúncias feitas pelo dirigente.
Fuga de empresários e alegada redução dos raptos
O líder da ANAMOLA contestou igualmente a narrativa oficial sobre a alegada diminuição dos raptos de empresários em Moçambique.
Na sua explicação, a redução dos casos não significaria necessariamente uma melhoria da segurança. Mondlane afirmou que mais de 500 famílias de empresários teriam abandonado o país, procurando estabelecer-se no Luxemburgo, em Portugal, no Dubai e noutros destinos.
Segundo argumentou, com a saída de muitos empresários, o número de potenciais vítimas de raptos também teria diminuído. Acrescentou que a partida daqueles que movimentavam a economia contribuiu para o enfraquecimento da actividade económica nacional.
Desaparecimento de mulheres e crianças e tráfico de órgãos
Mondlane manifestou ainda preocupação com o desaparecimento frequente de mulheres em diferentes regiões do país.
Afirmou que, enquanto as autoridades falam numa diminuição dos raptos, mulheres continuam a desaparecer semanalmente e algumas são posteriormente encontradas sem órgãos, sem cabeça ou sem órgãos genitais.
O dirigente denunciou igualmente o desaparecimento de crianças que regressam da escola e alegou que o tráfico de órgãos estaria a atingir níveis elevados.
Acrescentou que as escolas estariam cada vez mais afectadas pelo consumo e circulação de drogas, situação que, na sua avaliação, estaria a comprometer o futuro dos adolescentes moçambicanos.
Ao recordar o passado, mencionou o jornalista Carlos Cardoso, que, segundo disse, esteve entre os primeiros a denunciar a transformação de Moçambique num narco-Estado, através do artigo intitulado O Grande Negócio da Droga.
Mondlane concluiu este segmento afirmando que o sangue derramado actualmente acabará por alimentar a luta pela libertação do país.
Críticas ao Governo de Daniel Chapo e referência aos 65 mortos
O Presidente da ANAMOLA fez uma avaliação profundamente negativa do desempenho do Governo liderado por Daniel Chapo.
Na sua opinião, o Executivo representa um fracasso total por não ter conseguido recuperar a economia, criar empregos, dinamizar o turismo, reindustrializar o país, melhorar os sectores da educação e da saúde ou recuperar a posição que Moçambique, segundo afirmou, tinha em 1975.
Mondlane atribuiu esse alegado fracasso à falta de ideias e ao envolvimento do Governo em negócios que classificou como obscuros. Acusou ainda os responsáveis de venderem o país gradualmente e de colocarem em causa a soberania nacional.
O dirigente afirmou que Daniel Chapo poderá ficar registado na história como o Presidente moçambicano durante cujo mandato ocorreu o maior número de assassinatos de membros da oposição.
Criticou também o silêncio do Chefe do Estado perante as mortes que atribui à violência política, afirmando que o actual Presidente poderá juntar-se à lista de dirigentes africanos durante cujos mandatos foram descobertas valas comuns após a saída do poder.
Os 65 mártires mencionados por Mondlane
Durante a intervenção, Mondlane evocou 65 pessoas que classificou como mártires da luta política, afirmando que o sangue das vítimas clama por justiça, numa comparação com a passagem bíblica em que o sangue de Abel, assassinado por Caim, clama a Deus.
Entre os nomes que mencionou estão:
- Elvino Dias;
- Paulo Guambe;
- Albino Forquilha;
- Vilanculos;
- António;
- Abílio Vicente;
- Elídio Facitela.
O dirigente referiu que, no total, seriam 65 irmãos assassinados.
Ao abordar a responsabilidade política perante essas mortes, recorreu a um princípio que apresentou como simultaneamente jurídico e bíblico: uma pessoa que ocupa uma posição de poder e tem capacidade para alterar determinada situação, mas permanece em silêncio, poderá também ser responsabilizada pela sua omissão.
Na sua acusação política, afirmou que Daniel Chapo permaneceu absolutamente em silêncio perante as 65 mortes, tendo falado apenas sobre um terramoto ocorrido noutro lugar.
Aviso dirigido aos alegados responsáveis
Mondlane dirigiu também uma mensagem aos que considera responsáveis pelos assassinatos e pela repressão política.
Afirmou que, embora actualmente possam contar com o apoio da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) e da polícia, e tenham capacidade para matar ou prender o próprio Venâncio Mondlane, terão de responder pelas suas acções no futuro.
Questionou o que acontecerá aos filhos e netos dos alegados responsáveis e aos seus bens na Europa, advertindo que poderão vir a ser confiscados.
O dirigente invocou ainda a justiça humana e a justiça divina, referindo a passagem bíblica segundo a qual os pecados dos pais podem repercutir-se até à quarta geração. Na sua mensagem, advertiu que, caso os responsáveis não paguem pelos seus actos, os seus descendentes poderão vir a sofrer as consequências.
Três publicações apresentadas antes do julgamento
Outro momento importante do discurso foi a apresentação de três publicações que, segundo Mondlane, fazem parte da estratégia da ANAMOLA para divulgar internacionalmente a situação dos direitos humanos em Moçambique e preparar a defesa do dirigente no processo judicial que se aproxima.
1. Livro de investigação sobre direitos humanos
A primeira publicação é um livro que reúne uma investigação detalhada sobre casos de alegadas violações dos direitos humanos contra membros da ANAMOLA e apoiantes do projecto político de Venâncio Mondlane.
De acordo com a descrição apresentada, a obra contém informações sobre a forma como as vítimas foram mortas, as circunstâncias dos acontecimentos, as datas, os alegados responsáveis e cópias das denúncias apresentadas desde o ano passado, que, segundo Mondlane, foram ignoradas pela Procuradoria-Geral da República.
O livro estará disponível em português e inglês.
O dirigente anunciou que serão enviadas cópias ao Presidente da República, Daniel Chapo, ao Procurador-Geral da República, aos ministros da Justiça e do Interior, ao Provedor de Justiça e a todos os embaixadores acreditados em Moçambique.
Apelou igualmente aos moçambicanos para adquirirem e divulgarem a publicação, defendendo que o registo dos acontecimentos permitirá preservar a memória dos casos e identificar os alegados responsáveis.
2. Democracia a Sangrar / Bleeding Democracy
A segunda obra apresentada tem o título Democracia a Sangrar, com a versão inglesa Bleeding Democracy.
Segundo Mondlane, trata-se de um livro de pequena dimensão, concebido para levar a realidade política e social de Moçambique para além das fronteiras nacionais e dar visibilidade internacional às denúncias apresentadas pela ANAMOLA.
3. Biografia e dossiê de defesa legal
A terceira publicação reúne a biografia pessoal de Venâncio Mondlane e um documento de apoio à sua defesa judicial, intitulado em inglês Legal Defense and Due Process Supporters.
A obra, disponível em inglês e português, deverá conter os elementos considerados necessários para a preparação do julgamento.
“Julgamento do Século”
Mondlane afirmou que o processo judicial que se aproxima não deve ser entendido apenas como o julgamento de Venâncio Mondlane, mas como o “Julgamento do Século”, no qual, na sua perspectiva, o próprio regime político será colocado sob escrutínio.
Durante a intervenção, declarou que, pela primeira vez, um regime que acredita estar a julgar uma pessoa estará, na realidade, também a ser julgado.
Acrescentou que o Supremo Tribunal e a Procuradoria-Geral da República estarão igualmente sob avaliação pública e histórica.
O dirigente anunciou que a ANAMOLA tornará pública a versão integral da sua defesa escrita e que o documento será traduzido para inglês, francês, italiano e alemão.
A intenção, segundo explicou, é enviar a defesa às Nações Unidas, ao Tribunal Penal Internacional e à comunidade internacional, com o objectivo de expor aquilo que considera ser uma acusação fabricada pela Procuradoria-Geral da República para proteger um regime que classificou como criminoso e fraudulento, acusando-o de roubar o povo e destruir as finanças públicas.
Mondlane explicou ainda que o seu regresso a Moçambique, depois de três meses no exílio, foi motivado precisamente pela oportunidade de participar neste processo, fazer história e, nas suas palavras, retirar o véu que protege o regime.
Reestruturação interna da ANAMOLA e decisões estratégicas
Durante o discurso, Venâncio Mondlane abordou abertamente os debates e as mudanças que estão a ocorrer no interior da ANAMOLA.
Confirmou que o partido atravessa um processo de remodelação, reestruturação e purificação interna.
Dirigindo-se aos membros da formação política, pediu que mantenham os olhos e os ouvidos abertos, explicando que liderar um partido num ambiente que considera ditatorial exige firmeza e resistência.
Segundo Mondlane, os serviços secretos estariam a ser utilizados para perseguir, matar, sufocar, corromper, ameaçar e destruir opositores. Afirmou que, desde o período em que exercia funções como deputado, foram feitas tentativas de infiltrar a ANAMOLA, enfraquecê-la por dentro e até corrompê-lo pessoalmente.
Acrescentou que recebeu numerosas propostas para abandonar a luta política, mas rejeitou todas.
Ao explicar a sua posição, declarou:
“A minha alma não vai ao mercado. Não levarei a minha alma a leilão. Não colocarei os meus princípios numa transacção comercial. Prefiro perder este corpo, dobrar os meus joelhos, mas nunca dobrar a minha consciência, nunca dobrar os meus princípios e nunca colocar grilhões nas minhas palavras.”
O dirigente procurou também explicar por que razão considera que os membros da ANAMOLA estão a ser assassinados. Na sua interpretação, o partido é alvo de violência por ser a única formação que permanece firme contra o regime, a corrupção e a cooptação, mantendo uma posição de defesa intransigente do povo.
Comparando-se a um capitão responsável por conduzir um barco, afirmou que tem a obrigação de garantir que a estrutura partidária não apresente fissuras que possam comprometer a luta.
Por essa razão, explicou que as decisões de reestruturação têm um carácter estratégico. Reconheceu que algumas serão compreendidas imediatamente, enquanto outras só serão entendidas no futuro. Admitiu ainda que determinadas medidas poderão provocar críticas e até repreensões públicas, mas afirmou estar preparado para aceitar essas reacções.
Garantia sobre a continuidade da luta
Mondlane assegurou que todas as suas decisões, tanto no funcionamento da ANAMOLA como na sua vida privada, têm como objectivo preservar aquilo que descreveu como a luta do povo moçambicano, a dignidade nacional e a procura pela salvação e libertação do país, que designou como a “Segunda Independência de Moçambique”.
Reconheceu que o percurso poderá exigir sacrifícios e que algumas pessoas poderão abandonar o projecto, ser afastadas de funções ou sentir-se injustiçadas. No entanto, defendeu que a prioridade deve ser a preservação da integridade e da firmeza da luta política.
Reforçou essa posição com uma declaração de resistência:
“Podem matar-nos, não vamos desistir. Podem julgar-nos, não vamos desistir. Podem prender-nos, não vamos desistir. Podem ameaçar-nos, não vamos desistir. Podem corromper-nos, não vamos desistir. Nada jamais deteve a vontade de um povo de ser livre.”
Renúncias e sacrifícios pessoais
Para ilustrar a sua disponibilidade para abdicar de benefícios pessoais em defesa dos seus princípios, Mondlane recordou duas ocasiões em que renunciou a mandatos parlamentares.
A primeira ocorreu em 2018, quando, segundo explicou, sentiu que a permanência no cargo poderia comprometer os seus valores e torná-lo cúmplice de injustiças.
A segunda renúncia aconteceu em 2023/2024, pelo mesmo motivo.
Afirmou não ter dificuldades em abdicar de amizades, benefícios, privilégios, conforto, salários ou fama, desde que isso seja necessário para defender a causa popular.
O propósito da vida e a missão pessoal
Noutro momento da intervenção, Mondlane abordou o que considera ser o propósito da existência humana.
Na sua perspectiva, o pior que pode acontecer a uma pessoa é viver sem conhecer a missão que deve cumprir. Defendeu que todos chegam ao mundo com uma responsabilidade e que uma vida sem a realização desse propósito perde o seu sentido, independentemente da riqueza acumulada.
Revelou que o seu apelido vernacular significa “aquele que nasceu como tutor”, ou seja, o cuidador e protector. Segundo explicou, os apelidos podem indicar a missão de cada pessoa.
Afirmou ter compreendido que a sua missão não consiste em viver apenas para si próprio, mas em assumir uma responsabilidade nacional em defesa dos mais pobres, dos mais fracos e daqueles que não têm capacidade para se defender.
Garantiu que não pretende afastar-se desse propósito e advertiu que qualquer pessoa que tente desviar a ANAMOLA dessa missão acabará por ficar para trás.
Acrescentou que, no futuro, o historial de serviço de cada membro do partido será conhecido e que os crimes que, segundo ele, estão a ser cometidos actualmente serão esclarecidos não apenas em Moçambique, mas também a nível internacional.
Apelo a 24 horas de oração nacional antes do julgamento
No encerramento da intervenção, já depois de ser chamado ao pódio em Bangkok, Venâncio Mondlane lançou um apelo espiritual dirigido a toda a população moçambicana.
O dirigente anunciou que, nas 24 horas anteriores ao seu julgamento, pretende convocar uma corrente nacional de oração, acompanhada por uma transmissão em directo.
Explicou que a iniciativa terá vários pedidos centrais:
- Que a verdade seja conhecida sobre os acontecimentos de 2024, independentemente de o próprio Mondlane vir a ser considerado culpado ou inocente;
- Que Moçambique não seja traído;
- Que o país se liberte do crime organizado, dos cleptocratas e daqueles que, segundo afirmou, pretendem transformá-lo num narco-Estado;
- Que juízes, procuradores, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), o Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE) e todo o sistema judicial sejam libertados daquilo que considera ser a partidarização e o controlo por uma única força política;
- Que os moçambicanos se libertem da poluição mental, dos grilhões psicológicos e daquilo que descreveu como uma prisão colectiva;
- Que até os próprios membros da FRELIMO encontrem essa libertação.
Oração para cristãos, muçulmanos e pessoas de outras crenças
Mondlane esclareceu que o apelo não se destina apenas a uma religião específica. Convidou cristãos, muçulmanos e seguidores de outras crenças a participarem na iniciativa.
Reconheceu que cristãos e muçulmanos têm orado para que continue vivo até ao presente momento e pediu que a corrente de oração envolva todo o território nacional.
Na sua mensagem, mencionou uma mobilização que vá do Rovuma a Maputo, de Zumbo até ao Oceano Índico, com todos os cidadãos unidos numa única oração.
Defendeu que a oração tem mais poder do que qualquer exército, arma, ameaça, assassinato, crime ou organização criminosa.
Ao concluir o apelo, afirmou:
“Nesse dia conheceremos o poder da fé dos moçambicanos.”
O discurso terminou com uma mensagem de afecto dirigida à população, na qual Mondlane enviou um abraço caloroso, apertado e sincero a todos os moçambicanos, afirmando que o sentia no corpo, na alma e no espírito — o abraço dos moçambicanos.
Discurso reúne denúncias políticas, apresentação de documentos e apelo à mobilização nacional
A intervenção de Venâncio Mondlane, transmitida a partir de Bangkok em 30 de Outubro de 2026, reuniu uma série de denúncias sobre alegadas violações dos direitos humanos, críticas à governação de Daniel Chapo, acusações relacionadas com o crime organizado e explicações sobre o processo de reestruturação interna da ANAMOLA.
O dirigente apresentou ainda três publicações que, segundo afirmou, pretendem documentar os casos denunciados e preparar a defesa judicial, ao mesmo tempo que anunciou a divulgação internacional da sua posição sobre o processo que se aproxima.
Ao classificar o julgamento como o “Julgamento do Século”, Mondlane procurou enquadrá-lo como um momento de escrutínio não apenas da sua própria situação judicial, mas também das instituições do Estado e do sistema político moçambicano.
A intervenção terminou com um apelo à união dos cidadãos através da oração, independentemente da sua religião, e com a defesa daquilo que o dirigente designou como a Segunda Independência de Moçambique.